domingo, 17 de novembro de 2019

Opinião

Em defesa do Rio Salgado
Por Fabricio Moreira

Ladeira abaixo...
Doi.Dói muito ver o sofrimento do Salgado. Salgadinho, quando passa pelo Crato, descendo das Batateiras, onde ganha seu primeiro apelido, o Salgado vem perdendo a luta pela vida. As matas ciliares que lhe protegem o berço, já não mais se seguram, agredidas que são, todo dia, o dia todo pela estupidez do homem. Depois, quando chega no Crato,ao pé da serra, tome lixo, esgoto, dejetos, poluidores de toda espécie. E o Salgado, que já não é mais Salgadinho, já não mais engatinha como aquela criança do passado, mas escorrega e se arrasta por pura força de vontade que nasce da natureza, da brabeza da vida, porque rios fazem seus caminhos, circundando obstáculos.
O Salgado, por mais que tente, é espezinhado, agredido, enforcado, amordaçado, garroteadocom o garrote vil da insensatez. Mas a teimosia ainda que grosseiramente abatida a cada palmo no galope para o mar, o Salgado reune força pra tentar correr. Suas margens são caudalosos escandalos de desconhecimento. Indústrias, comércios,residências,povo em geral insistem em fazer do Salgado uma grande lixeira, desde lá de cima e pelos mais de vinte munnicípios por onde passa até chegar ao Icó, onde o Salgado desaba Jaguaribe abaixo.Uma valentia que impressiona, basta que Deus nos mande chuvas. Chove forte e o Salgado mostra a musculatura.
Sozinho encheu o Castanhão. Sozinho lavou a alma de quem preserva a terra e a natireza. Sozinho decepciona o incauto que lhe interrompe o caminho. Sozinho, o Salgado das Batateiras cratenses, ilumina o céu,quando o sol reflete no seu caminho, hoje sem luz, sem brilho, sem como se defender dos que lhe tolhem a caminhada. Eita Salgado que escorre nos corredores estreitos  quando o céu permite. Os poetas que o cantaram sofrem por lhe saberem doente, pálido, esquelético, como lhe querem a burrice e a desenfreada malquerença de milicianos do lixo e da deseducação.
Quando escreveu, no começo do século passado, versos sobre juventude, Padre Antonio Thomaz disse em

CONTRASTE:

Quando partimos no verdor dos anos,
Da vida pela estrada florescente,
As esperanças vão conosco à frente,
E vão ficando atrás os desenganos.

Rindo e cantando, céleres e ufanos,
Vamos marchando descuidosamente...
Eis que chega a velhice de repente,
Desfazendo ilusões, matando enganos.

Então nós enxergamos claramente
Como a existência é rápida e falaz,
E vemos que sucede exatamente

O contrário dos tempos de rapaz:
– Os desenganos vão conosco à frente
E as esperanças vão ficando atrás.

Parece o Salgado; de célere e ufano ao desengano das esperanças que vão ficando atrás. O que fazer, pergunto-lhe eu. De que falamos.? Como trabalhamos o renascer do Salgado pra que serpenteie outra vez entre pedras e lajedos, sob  pontes e arvoredos? Como disseminarmos uma cultura de paz pelo Salgado? Da consciência alheia seria o ideal, mas seria o razoavel? O Salgado não tem dono, e tem. Somos seus afilhados, seus filhos, seus netos, bisnetos. Temos da história o parentesco dai sermos e não sermos os donos de seu destino. O Salgado faz saudade quando despenca cheio. O Salgado faz preocupação quando cresce o come o dono que o aprisionou em suas lixeiras de alvenaria e veneno.E vaho-me outra vez do Principe dos Poetas Cearenses, o acaruense Pe.Antonio Thomaz:

DESENCANTO

Muitas vezes cantei, nos tempos idos,
Acalentando sonhos de ventura;
Então da lira a voz suave e pura
Era-me um gozo d’alma e dos sentidos.

Hoje vejo esses sonhos convertidos
Num acervo de penas e amargura,
E percorro da vida a estrada escura
Recalcando no peito os meus gemidos.

E, se tento cantar como remédio
Às minhas mágoas, ao sombrio tédio
Que lentamente as forças me quebranta,

Os sons que arranco à pobre lira agora
Mais parecem soluços de quem chora
Do que a doce toada de quem canta.

Então, dai-nos força pra cantar hoje outra vez e sempre a vida do Salgado.


 

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