segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Até Francisco se meteu no inferno amazônico

Comentários sobre a crise amazônica
 
O Papa Francisco pediu que os incêndios na Amazônia fossem extintos o mais rapidamente possível. “Estamos preocupados com os incêndios que ocorrem na Amazônia. Esse pulmão florestal é vital para o nosso planeta.”
Eliane Brum, no The Guardian, diz que o que está acontecendo na Amazônia - a explosão do desmatamento seguido dos incêndios para abrir áreas - faz parte das intenções do governo Bolsonaro. Para Eliane, “o fato de a Amazônia ainda ser vista como algo distante, na periferia da nossa visão, mostra o quão estúpida é a cultura ocidental branca. É uma estupidez que forma e molda as elites políticas e econômicas do mundo e também do Brasil. Acreditar que a Amazônia está longe e na periferia, quando a única chance de controlar o aquecimento global é manter a floresta viva, reflete a ignorância de proporções continentais. A floresta está no centro de tudo o que temos. Este é o verdadeiro lar da humanidade. O fato de muitos de nós nos sentirmos longe dela só mostra o quanto nossos olhos foram contaminados, formatados e distorcidos. Colonizados.”
Míriam Leitão escreveu dois artigos no seu blog n’O Globo. Um sobre a imagem queimada do país, no qual se pergunta como recuperá-la. Em outro, ela comenta: “Todos eles (países europeus) têm interesses comerciais envolvidos? Têm sim, mas isso não explica tudo. Até porque a Inglaterra do conservador Boris Johnson se juntou ao clamor. A chanceler, Angela Merkel, aceitou a proposta de Macron. A Finlândia também se manifestou. Bolsonaro só teve o afago, já no fim do dia, de Donald Trump. Queira ou não, o mundo tem o direito de se preocupar com o futuro da floresta que está tão ligada ao destino do planeta.” Ao final, Miriam conta a diferença feita pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina, entre incêndio e queimada, para afirmar que queimadas seriam comuns nesta época do ano. Para contrapor esta fala, Míriam reproduz uma frase recente da ex-ministra Marina Silva: as queimadas “nunca (foram) incentivadas pelo discurso de um presidente”.
Vinícius Torres Freire, na Folha, reparou que, no pronunciamento que fez na 6ª feira à noite, o presidente “não sabia do que estava falando, como de hábito. Bolsonaro elogiava décadas de políticas e acordos ambientais, os quais ameaça de morte, criados sob tantos governos, todos ‘de esquerda’ (...) [Bolsonaro] jacta-se do poder da sua canetinha, associando o exercício da Presidência ao mandonismo, de modo jeca e ignaro, para piorar. Tivemos ditadores mais espertos.”
Dorrit Harazim, n’O Globo, fala do livro “A Terra Inabitável”, de David Wallace-Wells, que tem um longo trecho sobre a Amazônia. Harazim fala do tema climático na política dos líderes do G7, em um trecho que vale reproduzir: “Nenhum dos poderosos do G-7 (...) foi eleito por suas preocupações e propostas ambientais. Eles foram sendo catequizados à ação pela força das evidências, e para não perder a sua conexão com o coletivo humano. Exceto Trump.”
Jonathan Watts, no The Guardian, eleva o tom e sugere que os líderes do G7 deveriam se perguntar se o estupro do mundo natural deveria finalmente ser tratado como um crime. No final, Watts diz que “se fazer de cego diante de um ecocídio não é mais opção. Os incêndios na Amazônia nos fazem lembrar que não são apenas um crime contra a natureza, mas um crime contra a humanidade.”
Elio Gaspari, na Folha, foi direto: “A resposta às queimadas é mais simples. Basta botar na cadeia meia dúzia de agrotrogloditas que se aproveitaram da mudança de governo para tocar fogo na mata. Quem conhece a Amazônia sabe que de nada adianta prender peões. Os agrotrogloditas estão em belas moradias nas grandes cidades e passam feriadões em Miami.”
Em editorial de ontem, o Estadão disse que “Jair Bolsonaro, em apenas oito meses de governo, conseguiu arruinar a reputação do país em uma das poucas áreas nas quais se destacava de maneira razoavelmente positiva, graças aos esforços na preservação das florestas nativas. Essa imagem não será recuperada enquanto o presidente continuar a se queixar da ‘mentalidade colonialista’ da França, ou o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, acusar países de usar ONGs ‘para atingir nossa soberania’, ou, ainda, o chanceler, Ernesto Araújo, dizer que ‘muitas forças nacionais e internacionais querem recolonizar o Brasil’. Se o governo realmente estivesse preocupado com a defesa da soberania nacional, estaria empenhado em esclarecer a opinião pública internacional sobre a verdadeira situação na Amazônia e o que está sendo feito para enfrentar o problema em suas reais dimensões. Ao preferir ofender a inteligência de todo o mundo civilizado, o governo Bolsonaro apenas desmoraliza o Brasil.”
Marcelo Leite, na Folha, usa a queda do Muro de Berlim, quando se queimava muito carvão, como símbolo de uma Alemanha que se esforça para limpar a matriz energética e deixar aquele carvão para trás. Leite lembra que “este é só o começo da estação de queimadas na Amazônia. Vem uma tempestade de fogo pela frente, e só os cegos não querem ver - embora alguns aplaudam o envio do Exército para combater chamas que supostamente não existem. Alemães, juntos, demoliram o Muro da Vergonha. Bolsonaro brinca com fogo para erguer o seu entre brasileiros.”
Celso Lafer, ministro das Relações Exteriores na Rio-92, lembra, no Estadão, que “o tema do meio ambiente e a preservação da Floresta Amazônica é, nos termos da Constituição, antes de mais nada, uma obrigação da soberania nacional, imposta ao poder público e à coletividade.” E termina dando uma bronca: “A palavra e os gestos são parte da ação diplomática. O tosco recuo unilateralista em matéria de ambiente que estamos presenciando é um estabanado tiro no pé no interesse nacional. Corrói o legado diplomático do Brasil, coloca em questão a nossa reputação e credibilidade internacional, desconsidera normas constitucionais.”
Jamil Chade, no seu blog no UOL, mira no prejuízo para imagem do país. Jamil falou com personalidades, abertamente e em off. Rubens Ricúpero, ex-ministro do Meio Ambiente e da Fazenda, disse: “No dia 21 de agosto, percorri todos os principais noticiários da televisão mundial (...) Todos, até na seção de previsão de tempo, dedicavam atenção principal às queimadas na Amazônia (...) Jamais tivemos nos últimos 50 anos um desastre de imagem tão catastrófico e irreparável como esse. É muitas vezes pior em intensidade, horário nobre, repercussão junto a estadistas e gente do povo do que sucedeu nos piores momentos do regime militar.” Chade conta, ainda, que “dois embaixadores que pedem para não serem identificados confirmam que, em décadas, jamais viram uma reação internacional contra o Brasil de tal magnitude. ‘Não me lembro da última vez que o Brasil passou a ser tratado como um pária, como está sendo hoje’”.
Vale registrar as entrevistas dadas pelo biólogo norte-americano, Thomas Lovejoy, a Giovana Girardi, no Estadão; pela ex-ministra, Marina Silva, para Felipe Betim, no El País; pelo médico, Paulo Saldiva, para Morris Kachani, no Estadão; e pela bióloga, Erika Berenguer, para Vinícius Lemos, na BBC News Brasil. A Dra. Erika também escreveu um artigo para o CicloVivo.
Registramos, também, as notas do CEBDS, que defende “zerar o desmatamento ilegal no curto prazo na Amazônia e em todos os biomas, e reduzir o desmatamento legal”, e do IBA em defesa da Amazônia.

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