terça-feira, 31 de julho de 2018

“Ataques criminosos estão ligados a enfraquecimento da Polícia Civil”

Fortaleza e a Região Metropolitana têm sido palco de uma série de ataques a ônibus e prédios públicos desde a última sexta-feira, 27. Até ontem, já haviam sido atingidos 14 veículos da frota do transporte público, além de agências bancárias, do depósito do Departamento Estadual de Trânsito do Ceará (Detran-CE) e de uma agência dos Correios no bairro Jacarecanga.
Segundo Ana Paula Cavalcante, presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Carreira do Estado do Ceará (Sinpol), isso tem relação direta com o que julga ser um desequilíbrio na distribuição de atenção, recursos e amparo às diferentes polícias no estado. “Há um investimento muito forte na Polícia Militar e não se vê o mesmo tratamento na Polícia Civil. Segurança pública é como o processo para decolar de um avião, deve ter duas asas equilibradas, mas o nosso avião tem uma asa totalmente estruturada e outra mais carente, com efetivo diminuto e diversos outros problemas. Há cinco anos a gente pede esse equilíbrio”, diz.

Com esse setor das forças de segurança sendo responsável por realizar as investigações que resultam na prisão dos criminosos em posições mais elevadas das facções, o combate a essas organizações fica comprometido quando não há investimento suficiente nesse equipamento, conta a presidente. “Do jeito que está, estão prendendo só avião do tráfico, pirangueiro, enchendo os presídios com esses soldados enquanto os generais estão tranquilos. Ninguém prende esses generais fardado, tem que ser com ações de investigação, inteligência, atividades da Polícia Civil”, continua ela.
Conforme um levantamento recentemente feito pela entidade, 58% dos inspetores e escrivães da Polícia Civil contratados durante os últimos dez anos no Ceará deixaram sua posição. É apontado ainda que parte considerável dos policiais civis formados no Ceará foram atuar em outros estados. Isso tem relação direta com o efetivo diminuto desse segmento de polícia no estado.
Falta, para Ana Paula, valorização desse profissional, o que explica o grande número de policiais que decidem se mudar para outros estados: “Já vi muita gente fazer concurso para a Civil do Piauí, que é o estado mais pobre do Nordeste e estava pagando praticamente o dobro do Ceará. Estamos perdendo bons profissionais”.

Em paralelo a isso, há problemas com a designação dos agentes que desempenham as funções de inteligência policial. A Coordenadoria de Inteligência (Coin) da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS), conta a presidente, é majoritariamente operada por policiais militares, quando essa é uma atividade que deveria ser vinculada à Polícia Civil. Ela avalia que hoje o efetivo insuficiente dessa polícia quase não consegue dar conta das demandas comuns e que, do jeito que está atualmente, ficaria sobrecarregado tendo que controlar a Coin.

Segundo divulgado pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus), um total de nove ônibus foram danificados na sexta-feira, três no sábado e mais dois no domingo. Desses 14, 10 tiveram perda total e o restante perda parcial. O órgão esclarece, por outro lado, que está conseguindo manter o serviço de transporte público em Fortaleza com normalidade, em parceria com a Secretaria de Segurança e a Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor).

As forças de segurança capturaram em flagrante três suspeitos de envolvimento nas ocorrências do fim de semana: Gean Patrick Aguiar Lima, 19, Pedro Henrique Mesquita de Sousa, 27, e Oderison dos Anjos Oliveira, 19. Segundo o secretário da Segurança do Ceará, André Costa, os ataques registrados desde sexta-feira são apontados como retaliação dos criminosos frente às mortes de três criminosos em um tiroteio com policiais ocorrido no município de Amontada na última quinta-feira, 26
Medidas
Ana Paula Cavalcante considera que, além de um esforço para alcançar um equilíbrio entre as duas polícias no Ceará, há outras possíveis soluções para o problema de enfraquecimento da Polícia Civil. Segundo ela, o início das atividades da nova unidade prisional do estado, o Centro de Detenção Provisória, poderá desafogar consideravelmente a atuação dessa polícia. Caso as pessoas hoje encarceradas nas delegacias possam ser transferidas para a unidade, será possível liberar cerca de 600 inspetores e escrivães que hoje têm que dar conta desses presos para trabalhar nas investigações de crimes.

Ela conta ainda que uma iniciativa do Sinpol, que deverá ser aplicada oficialmente em setembro, poderá contribuir para isso. Trata-se de unificar as atividades relativas aos cargos de escrivão e inspetor, de modo a dar mais dinamicidade às investigações e rapidez à conclusão dos inquéritos. Segundo a presidente, o modelo já é discutido em outros 12 estados, devendo ser adotado pelo Rio de Janeiro, que hoje também passa por uma grave crise na segurança pública.

Fonte - Jornal OEstado CE

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