sábado, 26 de agosto de 2017

Opinião

Inspiração e transpiração

Thomas Edison cunhou a celebérrima frase: "Génio é 1% inspiração e 99% transpiração." A ideia aplica-se a muita coisa, por exemplo em política, mas aí as percentagens variam muito, como mostram Trump, Costa e muitos outros.
Governar uma sociedade dá muito trabalho. É esforço longo, intenso, detalhado. Para cada assunto é preciso estudar a situação, compreender o problema, analisar os detalhes. Depois, considerar alternativas, conceber respostas, gizar estratégias, ponderar custos, fases, efeitos. Segue-se a morosa negociação com forças e interesses, para angariar apoios, equilibrar compromissos, compensar prejuízos. Finalmente surge a implementação, com medidas, detalhes, atrasos, adiamentos, imprevistos, correcções. Em geral, a inspiração inicial não chega a 1% do processo.
Esta verdade é patente para quem enfrente qualquer problema social, mesmo numa aldeia. Só que, como nas invenções de Edison, a evidência escapa à maior parte dos observadores, seduzidos por romances idealistas. Cidadãos, analistas e políticos, sobretudo em épocas de ruptura como a actual, são dominados pelo mito confortável de considerar os problemas nacionais resolúveis com novo líder, estratégia inédita, revolução original. Achando que uma inspiração diferente basta para tudo se resolver, esquecem cerca de 99% das questões. Assim, múltiplos dirigentes empolgados, com ideias radicais, acabaram atolados no complexo labor político quotidiano.
Caso extremo nesta estrutura vem hoje da própria terra de Edison, onde a política sofre há anos de crescente excesso de inspiração e défice de transpiração. Donald Trump, goste-se ou deteste--se, é um dos mais inspirados líderes actuais. Os seus slogans (make America great again, America first) e planos (muro mexicano, NAFTA, Obamacare) dominam as notícias instantânea e repetidamente. Ninguém fica indiferente, inspirando intensa adesão ou repulsa.
A inspiração de Trump é o seu elemento central mas não é aí que reside a catástrofe desta administração. A derrocada está a vir, não da ideologia, aliás ainda por implementar, mas da falha do aparelho decisório. Trump não transpira. Ele foi eleito devido à profunda desconfiança dos americanos com o aparelho de Washington. A desmontagem desse aparelho gerou um governo paralisado, à deriva, sem propostas concretas, medidas coerentes, soluções plausíveis. Aliás, a máquina política nem sequer está completa, com enorme atraso na nomeação de centenas de postos, que compete ao Presidente, e os poucos colocados são sucessivamente substituídos. Trump é o anti-Edison: 99% de inspiração, 1% de transpiração.
Se os EUA estão num extremo, a Europa mostra diversidade de posições. Alguns, como Cavaco, Major ou Kohl seguiram a linha de Edison, transpirando para vencer os desafios da adesão europeia, como Passos face às imposições da troika. Tsipras, face à mesma ameaça, começou como Trump, mas inverteu as percentagens e começou a trabalhar. Pelo seu lado, os nossos dois últimos governantes socialistas seguiram linhas algo originais.
José Sócrates, tribuno apaixonado e inspirado, centrou a sua carreira política em ideais e promessas. O consulado socialista de 2005 a 2011 foi cheio de paixões e planos, programas e confrontos. Por isso ele foi sempre intensamente amado e odiado. Mesmo hoje, seis anos após a queda, o antigo primeiro-ministro mantém--se o político mais controverso do país, suscitando mais emoções que os no activo. Nenhum ex-líder, em 40 anos de democracia, dominou tanto as páginas dos jornais enquanto simples cidadão.
Com excesso de inspiração, o defeito do seu percurso foi falta de transpiração. Objectivos e promessas eram grandiosos, mas escasseavam estudo, concepção, elaboração e execução. As ideias multiplicavam-se, mas sempre improvisadas, descosidas, mal acabadas. O sucesso e o optimismo, apesar de intensos, rapidamente se mostraram ilusórios. O crescimento socrático nunca descolou, acabando em falência nacional. Sócrates, longe ao extremo de Trump, foi 70% inspiração e 30% transpiração.
Talvez por ter aprendido com esses erros, o actual governo segue caminho diverso e, em grande medida, oposto. Costa assume um perfil modesto, cordato, negociador. Omitindo os projectos empolgantes e programas decisivos, dedica-se a reduzir o défice, cortar o desemprego, aprovar reformas morosas e detalhadas.
No entanto, grande parte da transpiração de Costa é dedicada a inverter as promessas das forças radicais que compõem a maioria. O governo, inspirado pelo PCP e BE, prometeu eliminar a austeridade, reverter reformas laborais, lançar crescimento baseado no consumo. Como essas ideias são fantasias evidentes, a sua política concreta tem sido exactamente inversa, procurando cortar a despesa, dar garantias públicas a fundos especulativos, etc. Apanhado nas contradições, Costa tem sido 70% inspiração e 70% transpiração, anulando 40% da primeira. No final arrisca-se a perder as duas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico (João Cesar das Neves)

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