quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Do outro lado do Atlantico

Por onde caminho tenho feito amigos que muitas vezes nem vou conhecer direito. Inclusive deixo meus pés marcados na areia movediça das opiniões e as ouço de pessoas com quem combino, ou não. Mas leio, vejo,ouço. É a lei sagrada da vida; não gosto de você mas respeito sua opinião. Nisso, pelo menos sou radical. Nunca fui de direita, mas isso não dá a ninguem o direito de me rotular de esquerda, ou de centro ou da casa do cacete. Sou o que sou e minhas circunstancias, disse um dia alguem, mas em não gostando do "minhas consequencias", coerente sou com o respeito. Toda essa léria vem em razão do texto recebido do coleguinha portugues,Pedro Tadeu, do DN de Lisboa, com que inauguro esse sol nascente da janela do meu tugúrio...


Por favor, não matem Chico Buarque


Andei uns dias a ignorar o mundo. Ontem fui procurar, a golpes de polegar no ecrã pequenino do meu telemóvel, motivos para comentar as notícias que este tresloucado planeta nos oferece.
Há nazis na América? De que estavam à espera? O terrorismo do Daesh e apaniguados, mesmo desarmado, não desiste da guerra? De que estavam à espera? Um outro tipo de terrorismo, o dos incêndios em Portugal, também mata e também não desarma? De que estavam à espera?...
Marcelo Rebelo de Sousa está em todo o lado? Sim. António Costa convida o PSD a apoiá-lo no lançamento de novas obras públicas? Pois. O PSD responde que Costa parece Sócrates? Óbvio. Marques Mendes, afinal, não adivinha o futuro? Certo. Donald Trump pensa enviar mais tropas para o Afeganistão? Claro. E há um eclipse na América?... Mas onde está a surpresa, a verdadeira novidade disto tudo?... Chico Buarque está a ser acusado de machismo? Ó diabo, aguenta aí!...
A notícia diz que uma estrofe dos versos de Tua Cantiga, lançada há dias, provocou aquela acusação: "Quando teu coração suplicar/ Ou quando teu capricho exigir/ Largo mulher e filhos/ E de joelhos/ Vou te seguir." Pois uma enorme multidão, nos jornais brasileiros, nas redes sociais, insultou e insulta o compositor por ser um gajo capaz de largar a família por causa de uma amante; por ter uma noção de romantismo datada, própria dos anos 70 do século passado; por insultar as mulheres abandonadas; por menorizar o papel da mulher na sociedade e por enésimas outras maldades cometidas a todo o género feminino, imensas enormidades suspeitadas em apenas quatro versos curtinhos.
Prestigiados intelectuais e jornalistas populares trocam argumentos a favor e contra o autor de Mulheres de Atenas, discutem sociologia, psicologia, sexo, família, adultério e amor; recursos estilísticos, metalinguagem e licença poética; ritmos, harmonias e dissonâncias. Misturam, pelo meio, o combate político por o artista ser, alegadamente, esquerdista, petista, comunista e sei lá que outros istas. Ah, e as mulheres do século XXI, dizem, não querem homens loucos de paixão... Caramba!
O mais irónico é que na vanguarda deste processo contra o uso politicamente incorreto da dor de corno estão muitas notáveis cabeças da crítica aos excessos do politicamente correto: estes arautos da liberdade individual contra normas de linguagem que procuram deter a discriminação racial e sexual (normalmente defendidas por pessoas alinhadas ideologicamente à esquerda) afinal também tentam impor um código bem rigoroso sobre o que um artista deve ou não deve trovar - e a favor da moral tradicional e da elevação dos costumes, tal como nos anos 50 do século passado. Que monumental hipocrisia!
Perplexo com o que leio no telemóvel, recordo o Chico Buarque que desde o início da minha adolescência (sim, nos anos 70 do século passado...) me ensinou tanto do que sei sobre sexo, amor, romantismo, solidão, prazer, feminismo, machismo, hedonismo, solidariedade, opressão, liberdade, tolerância, justiça, desonestidade, globalização, bairrismo, pobreza, trabalho, riqueza, capital. E, também, métricas bizarras, rimas surpreendentes e acordes dissonantes para violão. É obra.
Critiquem lá o homem como quiserem - afinal, Chico Buarque lutou muito para que os brasileiros o pudessem fazer - mas, por favor, não o liquidem de vez. O mundo, nos últimos tempos, começou a ficar mais louco, mais perigoso, menos livre, mais injusto, mais estúpido, mas um mundo sem Chico Buarque deixará, simplesmente, de ter esperança. Isso, sim, seria fatal.

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Capa do jornal OEstadoCe