domingo, 4 de junho de 2017

Em Pernambuco...

Ciro Gomes: 'A candidatura de Lula seria um desserviço ao País'

Hoje no PDT, ex-governador do Ceará se apresenta como candidato a presidente da República em 2018

Ciro Gomes diz que candidatura de Lula seria um desserviço ao País e ao próprio ex-presidente / Ricardo Stuckert
Ciro Gomes diz que candidatura de Lula seria um desserviço ao País e ao próprio ex-presidente
Ricardo Stuckert
Franco Benites e Paulo Veras
Ex-governador do Ceará e ex-ministro por duas ocasiões, Ciro Gomes (PDT) estará no Recife no próximo sábado (10). Uma semana antes de desembarcar na capital pernambucana, ele concedeu uma entrevista ao Jornal do Commercio. Esta é a primeira parte. Aqui, você confere o segundo trecho da conversa.
JORNAL DO COMMERCIO - O presidente do PDT, Carlos Lupi, afirmou que o fato do senhor não ter papas na língua seria uma de suas principais virtudes. Quais suas credenciais para ser presidente da República?
CIRO GOMES - O que o País precisa não é de um salvador da pátria, de um Sebastião que resolva o problema por nós. O País precisa de um projeto nacional de desenvolvimento que tenha compromisso claro com a superação da miséria e da desigualdade, das sequelas da violência, da carência de infraestrutura e que seja capaz de fazer o Brasil voltar a crescer superando anos de estagnação econômica. Esse projeto tem que se proposto por alguém que tenha treinamento, qualificação moral, preparo e experiência porque boa parte do que estamos vivendo é um pouco descuido com o preparo e o treinamento dos nossos dirigentes. Nesse sentido, menos por mérito meu e mais por demérito dos que estão postulando, sou a pessoa que tem mais experiência êxitosa. Nunca respondi a um inquérito, nem para ser absolvido, em 37 anos de vida pública. Fui parlamentar por, ministro, prefeito e governador e tenho há praticamente 20 anos me dedicado a estudar o problema brasileiro, conhecer a nossa geografia econômica, nossa inteligência e dificuldades. Duvido que algum brasileiro tenha dedicado tanta atenção do País quanto eu tenho feito, o que não é mérito nenhum meu a não ser o privilégio de ter servido ao País nessas ocasiões todas.
JC - O presidente do PT, Rui Falcão, sinalizou que o partido poderia fazer uma aliança com o senhor. Há tem interesse?
CIRO - Recebo com gratidão, mas acho completamente improvável. A natureza do PT não é apoiar ninguém, é de hegemonismo. O sonho deles sempre é serem os únicos no campo progressista como expressão partidária. Mesmo com tudo o que tem acontecido não vejo que eles tenham se dedicado a um mínimo de autocrítica. Tenho sido parceiro do PT. Em certas situações somos adversos, mas a história é de parceria tanto no Ceará quanto no Brasil. Mas o meu palpite é que o PT terá candidato.
JC - O senhor concorda com a candidatura do ex-presidente Lula (PT)?
CIRO - Não tenho que concordar ou discordar. O que acho, e falo isso com franqueza e respeito, é que a candidatura dele seria um desserviço ao Brasil e a ele próprio. A ele próprio porque jamais conseguirá o extraordinário momento que viveu como presidente. E ao País porque do jeito que as coisas estão, justa ou injustamente, ele divide a sociedade brasileira em ódios, passionalismos e até violência, impedindo que o debate de 2018 seja estratégico de economia, de desenho institucional do País, até das premissas do jogo político.
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JC - O senhor tem um estilo bastante assertivo. Deu declarações fortes recentemente sobre o juiz Sérgio Moro, sobre o prefeito de São Paulo, João Dória. Continua com esse estilo? Ou a gente pode ver um Ciro "Paz e Amor" como teve o Lula no passado?
Não. Aquilo é um projeto de marketing. Eu sou um homem público que cultiva a política. Eu não cultivo o marketing. Agora, é preciso que... vocês acabaram de me entrevistar, perguntaram o que quiseram perguntar, ouviram as minhas respostas. E eu sou isso daí. Agora, como eu fiz essa fama, hoje em dia com a Internet que é uma coisa extraordinária, muito importante, mas também deu voz, como diria Umberto Eco, a uma legião de imbecis, eu tenho visto invenções absolutamente grotescas de palavras que eu jamais proferi postas na minha boca. É preciso tomar cuidado com isso. Por exemplo, a história do Moro, eu disse um grande "se", uma grande condicional, porque simplesmente eu sou professor de Direito. Então eu disse, se defender um jornalista que foi constrangido e preso ilegalmente para revelar fonte por ele, Moro, e evidentemente que eu fiz uma pergunta... Se fosse o Bonner, apresentados do Jornal Nacional da Rede Globo, que o Moro tivesse mandado levar preso, para obrigar ele a revelar fonte? Ali, como era um blogueiro humilde, eu sai em defesa porque eu sou um professor de Direito. Eu sou uma pessoa que vem do enfrentamento à Ditadura. Eu sei que a gente deixando eles começarem assim, eles vão avançar. E aí defendendo o blogueiro, eu disse que se eu não fiz nada errado e um cara manda me prender, essa foi a minha frase, eu tenho direito de receber ele a bala. Porque isso é simplesmente como se lê no Código Penal o instituto da legítima defesa. Qualquer do povo tem direito a agir em defesa do seu próprio direito se tiver sido agredido com os meios necessários. Isso é o melhor direito. Evidente que eu falo de um jeito que a população mais simples entende. E o meu compromisso é com o povo mais simples. A frase do Dória, eu nunca disse. Porque eu considero o Dória um farsante perigoso. É o novo Collor que a plutocracia de São Paulo está produzindo. Mas eu não tenho nada a ver com a vida sexual do Dória, nem com os hábitos sexuais do Dória, eu não tenho nada a ver com isso. Nunca mencionei, nem dele, nem de ninguém.
JC - O senhor defende as eleições indiretas...
CIRO - (interropendo a conclusão da pergunta) Não. Isso foi uma manipulação. O que eu falo é que o partido tomou a posição de defender as eleições diretas no caso de haver vacância, o que supõe a necessidade de uma emenda à Constituição para que as eleições diretas possam acontecer. Dei uma opinião, que foi mal-versada, que acho improvável que aconteça isso. O melhor caminho seria antecipar as eleições gerais de 2018 porque você renovaria a estrutura de poder que está apodrecida e desligitimada pelo golpe e pela sequência de escândalos que acabaram atingindo o centro dos golpistas.
JC - Uma vez eleito, o senhor vai encontrar um Congresso com PMDB, com Centrão. Como se articular com essas forças?
CIRO - A minha proposta é de ser candidato a presidente do Brasil e eu não tenho o menor plano de ser ditador. Então, é preciso que primeiro a gente estimule a população a votar de forma coerente em um presidente e em uma base parlamentar. Não é problema do Congresso a falta de avanços em reformas no Brasil. Qual foi a reforma que o Fernando Henrique (PSDB), Lula e Dilma propuseram e o Congresso não deixou passar? Não houve nenhuma. Quando o Collor se elegeu por um partido minúsculo ele teve o poder do mundo todo na mão até que fez um sequestro da poupança nacional por medida provisória. O Congresso apoiou, o Judiciário encolheu. Prefiro o exemplo do Juscelino Kubitschek, que vinha de uma sequela que foi o suicídio do Getúlio Vargas, e conseguiu negociar com governadores e o Congresso, mas basicamente trazendo o povo na jogada. Esse é o meu plano. Um misto de negociação, que tem que ser feita, com política de governadores, que Dilma abandonou e pega uma federação toda quebrada e não por acaso caiu, deixando o Congresso presa fácil de grupos de pressão, lobby e da grande mídia de São Paulo. Qual é o problema de governabilidade que qualquer um de nós tenha? Isso não existe. As pressões, as contra-pressões, o reacionarismo, o conservadorismo, isso é do jogo. O Congresso é o que ele é. Ele é expressão da contradição brasileira.
JC - A Justiça foi leniente com os executivos da JBS?
CIRO - Nunca vi coisa parecida e não é possível que o Supremo Tribunal Federal vá homologar e dar esse bofete no rosto do povo brasileiro em que marginais desse coturno possam agora estar passeando em Nova Iorque, flanando lá, como gângster, enfim. Mas acho que a justiça americana alcançará eles.
JC - Há uma preocupação do senhor em relação a delação da JBS que envolveu o seu irmão Cid Gomes? Isso de alguma maneira atrapalha sua caminhada política?
CIRO - Absolutamente, não. O meu irmão, imediatamente, convocou uma entrevista coletiva - que eu não tinha dúvida disso porque eu o conheço desde neném, desde que ele nasceu. Ele convocou uma entrevista coletiva e desmentiu. Nunca pediu dinheiro a JBS. A nenhum desses vagabundos gângster que estão aí flanando em Nova Iorque enquanto a República arde na chama da corrupção que eles são os corruptores-mor. Anunciou que iria processá-los. Infelizmente a vida é assim, a gente tem que suportar. E eles próprios, que isso é um problema do Ministério Público, divulgaram um vídeo em que o camarada fala que o Cid pediu. Mas quando o cara assina a apresentação do acordo, ele já não fala mais. Isso só chegou a nossa cópia aqui depois. Então ele vai ser processado e vai responder por mais essa.

JC - Em relação à reforma política, há esperança de que saia do papel? CIRO - Raciocine comigo. A institucionalidade em vigor gera a representação que temos. Em nome de que a representação que temos vai mudar a institucionalidade que lhe deu origem? Permanece o tempo inteiro os políticos enganando a população. A gente só sai desse curto-circuito com um presidente da República que tenha clareza da realidade e que faça uma proposta que possa entrar em vigor daqui a três eleições ou quatro eleições no futuro. E a reforma política que o povo precisa é uma que controle a relação entre dinheiro e político e que diminua a distância entre a promessa da véspera da eleição e o resultado. Evidentemente que eles agora estão tramando é para se proteger das perdas da Lava Jato. Estão querendo fazer o sistema de lista, tão querendo financiamento público de campanhas, nesse contexto de reação à Lava Jato. Mas isso não é reforma política.
JC - No passado, o senhor chegou a elogiar o senador Aécio Neves (em 2009, Ciro disse que a presença de Aécio era importante para o País). Diante desses últimos acontecimentos, qual a imagem que o senhor tem do senador?
CIRO - Olhe, meu irmão, de dez anos para cá eu tenho me decepcionado profundamente. Porque para mim, não é uma pessoa que eu vejo pela televisão. O Aécio eu conheço desde quando ele era secretário particular do Tancredo Neves. Como eu estou há muito tempo na estrada, eu já tinha ajudado o Tancredo lá atrás no colégio eleitoral. Tinham delegados das assembleias e eu já era deputado estadual. Eu fotografei com ele, ele me chamou para agradecer, etc, etc. Eu conheci o Aécio Neves nessa circunstância. E ver o que ele virou, para mim, é absolutamente chocante. O Sérgio Cabral (PMDB-RJ) é outra experiência. Como é que pode o jovem que eu vi, filho de um intelectual, boêmio, gente boa, que eu conheci garoto, virar essa coisa monstruosa que virou por amor a dinheiro? Eu estou chocado, francamente.
JC - Numa possível gestão do senhor, que espaço vai ter o combate à corrupção?
CIRO - Isso é premissa. Isso não pode ser virtude, nem vantagem moral. E quem na política fizer do moralismo de goela a sua bandeira, como infelizmente está infernizando o Brasil isso, simplesmente é porque não tem a percepção correta dos verdadeiros problemas do Brasil ou é um mero mistificador. O que a gente tem que ser é sério. Não roubar e não deixar roubar. Agora, prometer que não vai ter corrupção é mentira de quem não conhece a vida. Porque o poder corrompe. Isso é Montesquieu. E a gente tem que ter mecanismos de prevenir isso e controle em certas práticas. No meu governo no Estado do Ceará, eu anunciei, logo na primeira reunião do secretariado, que a política seria assim. Calúnias genéricas e difamação, infelizmente é da prática política do mundo. Por aí a gente segue trabalhando. Mas se houver uma acusação específica, o acusado pede imediatamente uma apuração independente e se afasta da posição. Suposto, é inocente, mas se afasta da posição. E acabou acontecendo com dois secretários. E mais um do segundo escalão. Desses três afastados, dois voltaram desagravados porque eram inocentes. E o outro eu entreguei para o delegado de polícia porque era verdade a denúncia. É assim que o Itamar fez alguns anos depois. Isso é o que eu pretendo fazer em qualquer oportunidade que eu tenha de servir ao País.
JC - Em relação ao aborto e à união homoafetiva, qual a sua opinião?
CIRO - O presidente da República não é um guru de costumes. O presidente da República tem que ser média e representar a média da sociedade. E a sociedade brasileira é profundamente cristã, crescentemente neopentescotal e ainda majoritariamente católica, e esses grandes movimentos que têm solidariedade com os pobres e que têm solidariedade com a decência são antagônicos a isso. Então, como presidente da República, você tem que respeitar essa contradição da sociedade. Eu, Ciro Gomes, como cidadão, já tenho públicas as minhas opinião. Eu sou pela tolerância, pelo respeito, pela autonomia do corpo da mulher, que ela tem a solução e que o Estado não deveria interferir nessas coisas. Portanto, a minha opinião é que toda forma de amor é respeitável e que o corpo da mulher é assunto dela, da sua moral, da sua religiosidade. Mas é gravemente o aborto uma questão de saúde pública.
- Como o senhor vê o crescimento da extrema direita do País?
CIRO - Isso é uma das sequelas da contradição do PT e da nossa aliança. Na medida que a tal esquerda fracassou do jeito que está sendo vendido (e nem é tão verdade assim), chafurdando no escândalo, evidente que direita que sempre existiu sai do armário. Isso eu não vejo como uma coisa necessariamente ruim, não. Eu acho que como esse pensamento existe, ele se escondia no anti-petismo votando ali acanhado votando escondido no PSDB, agora vendo que o PSDB é uma grande fraude, está se expressando a luz do dia. Isso é bom para a gente saber quais são os quadros que a política produz. Quais são as ameaças que a política pode produzir se a gente não amar a democracia.
JC - Nas pesquisas de intenção de voto, o senhor está com algo em torno de 5%. A que o senhor atribui esse desempenho atual e como otimizá-lo?
CIRO - Pesquisa retrata um momento e a vida não é uma fotografia, é um filme. Não há nenhuma pesquisa feita com dois anos de antecedência na história política e eleitoral brasileira que tenha se reproduzido o resultado, mas é engraçado que nós, políticos e jornalistas, sempre pensamos em antecipar os fatos. A pesquisa retrata esse momento que tem a ver com nível de conhecimento e desconhecimento, de preferência espontânea e induzida, de rejeição, antagonismos. Vejo com paciência e tranquila e com a experiência que tenho eu sei que ela nada mais é o retrato de um momento. A eleição é outro assunto.
JC - O senhor já foi do PSB. Hoje, tem alguma relação com o partido?
CIRO - Saí pela porta da frente, sou amigo de todo mundo. Houve uma discordância política porque considerei que era deslegal com o PT e com a Dilma que a gente estando no governo dela fosse apresentar uma candidatura contra ela até porque eu achava que o partido tinha que ter tido candidato quando encerrou o governo de Lula. O PT não tinha candidato natural e era natural que o PSB, sem qualquer tipo de contradição, podia participar. Discordamos eu e Eduardo Campos, que liderava o partido com todo o merecimento, fui voto vencido e apoiei a Dilma. Na sequência, participando do governo, conseguindo benefícios aí para Pernambuco e para o Ceará, na véspera da eleição a gente sair (do governo) feria o meu sentido de decência e lealdade. Mais uma vez discordamos e eu saí pela porta da frente.
JC - Nas redes sociais, há uma intensa crítica das pessoas falando que o senhor se apresenta como sendo de esquerda...
CIRO - (interropendo a pergunta) Eu não me apresento como candidato de esquerda a ninguém. Você nunca terá visto eu dizer que sou candidato de esquerda até porque o Brasil não cabe numa proposta de esquerda. A proposta que eu advogo é uma aliança de centro-esquerda e ela tem coisas concretas e práticas que é a reunião que interessa ao empreendedor brasileiro e o mundo do trabalho. Isso se afirma em um projeto de industrialização reforçado por uma coordenação estratégica do estado. No Brasil, até o adjetivo esquerda foi mal-versado porque se alguém que é do PT quiser defender a economia política que o PT fez está muito enganado. Isso não é esquerda não. Isso foi extremamente reacionário e rigorosamente igual ao que Fernando Henrique fez do ponto de vista de economia política.
JC - A sua aliança teria espaço para o PSOL e o PCdoB?
CIRO - Tem. Tenho frequentado ambientes dessa potencial frente ampla porque temos uma afinidade grande neste momento. Temos a crença que o Brasil passou por um golpe de Estado e que não é possível aceitar essa agenda de um neoliberalismo mofado que está tentando se impor ao País e temos nos encontrado para discutir uma luta conjunta. Mas volto a dizer que o processo eleitoral no Brasil será muito fragmentado porque é o fim de um ciclo que estamos vivendo.

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