segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Bom dia

Temer conquista deputados de pouca expressão com paparicos e atenção


Zeca Ribeiro - 18.out.2016/Câmara dos Deputados
O deputado Hildo Rocha (PMDB-MA)
O deputado Hildo Rocha (PMDB-MA), que recebeu uma ligação de Temer
"Deputados da base do governo Michel Temer, eu sei que Vossas Excelências estão cheios de cargos, cheios de emendas, estão todos papudinhos", berrou no microfone do plenário o oposicionista Sílvio Costa (PT do B-PE) na votação do novo projeto de repatriação, no dia 15.
Apesar do ataque, ele conclamava os governistas a lhe seguirem e rejeitarem o projeto. "Isso é um escândalo! Isso é um escândalo!"
Como de hábito, ninguém lhe deu bola e o projeto foi aprovado tranquilamente.
Embora tenham se mantido calados na sessão, são numerosos os "papudinhos" de Michel Temer –o termo define aqueles que estão com o papo cheio de verbas, cargos e prestígio. Ilustram um cenário bastante curioso.
Só 1 de cada 10 brasileiros acha o governo federal bom ou ótimo. Já na Câmara o cenário vira de ponta-cabeça: de cada 10 parlamentares, 8 defendem o peemedebista.
O que explicaria a abissal diferença?
Temer ainda não acumula o desgaste legislativo de governos mais longos e reúne praticamente todas as forças políticas que se mobilizaram na aprovação do impeachment de Dilma Rousseff.
Mas é no "paparico" que Temer tem dado de goleada, na opinião de diversos deputados que apoiaram os governos Dilma e o atual.
A Folha ouviu mais de uma dezena deles e perguntou: qual a diferença entre Dilma e Temer na relação com os deputados?
"Noooossa!", respondeu Beto Mansur (PRB-SP), "muita diferença". Deputado das antigas, ele diz que Dilma lembra a relação que Fernando Collor (90-92) tinha com o Congresso. "Eu era deputado e nunca tinha falado com o Collor. Aí, quando estava estourando o impeachment, ele me ligou. Não atendi."
Com Temer, fala que a história é outra. Tem acesso liberado ao Planalto e entre outros mimos foi convidado para a viagem presidencial à China. "É claro que tem gente aqui que vive de cargo, mas a maioria precisa é de atenção. E o Temer agradece ao Congresso o apoio, ele não esquece isso", pontua.
De fato. Hildo Rocha (PMDB-MA), integrante do batalhão de deputados sem expressão nacional, diz ter achado no início que era trote. "Ele me ligou um dia direto no meu celular pra me parabenizar por eu ter defendido um projeto do governo, nem me lembro mais qual."
Campeão de votos para a Câmara, mas tímido e calado nas sessões, Tiririca (PR-SP) manteve a economia de palavras ao descrever a diferença Dilma-Temer. "Ele é mais maleável. [pausa] Sabe jogar."
Lincoln Portela (PRB-MG) é outro dos que tecem loas ao presidente. "Ele é um poeta, eu e outros deputados íamos antigamente com ele ao Piantella [restaurante badalado por políticos em Brasília]. Ele gostava de cantar 'Trem das Onze' ao piano."
Portela sublinha a diferença citando a única experiência mais particular que diz ter tido com Dilma. Na ocasião, conta ter defendido um projeto seu com diretrizes genéricas a favor da paz. "Ela olhou nos meus olhos e disse: 'Lincoln, eu não acredito em cultura da paz'."
AMIGOS
"A Dilma foi secretária de Estado, ministra, presidente, nunca foi do Legislativo. O Temer foi três vezes presidente da Câmara, ele sabe o que pensa e quais são as prioridades do parlamentar", diz Rogério Rosso (PSD-DF).
E de fato o Parlamento não vive apenas de mimos.
"O Temer sabe que muitas vezes um posicionamento numa empresa, numa secretaria, em um ministério é muito importante, politicamente é um 'handicap', isso se espalha no meio político. Falam 'pô, o Marquezelli tá forte, conseguiu fazer a secretaria tal'", diz Nelson Marquezelli (PTB-SP). "Política é soma. Soma de prestígio, soma de votos, soma de amigos."
Joaquim Passarinho (PSD-PA) dá outro exemplo. Relata como conseguiu fazer com que o governo Temer patrocinasse em 15 dias a liberação de energia elétrica para a canadense Belo Sun, que recebeu polêmica autorização do governo do Pará para montar o que seria a maior mina de ouro do país. "Antes não tinha boa vontade, hoje tem."
Justiça seja feita, a Folha encontrou um deputado que afirma que Dilma tratava melhor os parlamentares. Só que deu declarações apenas "off the record" –ou seja, sem que seja identificado.

Fonte - Folha de São Paulo

Nenhum comentário:

Postar um comentário