domingo, 8 de janeiro de 2017

Opinião

clóvis rossi
É repórter especial. Ganhou prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Escreve às quintas e aos domingos.

O Brasil precisa de um Trump?


Evan Vucci - 28.nov.2016/AP
O presidente eleito dos EUA, Donald Trump, escuta perguntas de repórteres em entrevista na Flórida
O presidente eleito dos EUA, Donald Trump, escuta perguntas de repórteres em entrevista na Flórida
Donald Trump é um horror. Mesmo assim, há um lado dele que talvez pudesse ser útil ao Brasil.
Refiro-me às ameaças do presidente eleito às montadoras General Motors, Ford e Toyota para tentar forçá-las a trazer fábricas instaladas no México de volta para os EUA.
É verdade que muito do que Trump tuíta é pura bravata, como demonstra extensa reportagem do "Washington Post", que remonta às primeiras ameaças, feitas ainda durante a campanha eleitoral.
De todo modo, até o "WP", crítico feroz do candidato, aceita que Trump salvou 700 empregos que a Ford transferiria para o México, uma contabilidade que estou restringindo apenas aos tuítes desta semana.
É uma ninharia para um país que, só em dezembro, ainda sob a presidência de Barack Obama, somou 156 mil empregos aos já existentes.
Um eventual Donald Trump brasileiro, no entanto, se agisse da mesma maneira —e não apenas tuitasse—, poderia ajudar com um número potencialmente maior de empregos a serem salvos.
Afinal, conforme relata minuciosa reportagem do jornal paranaense "Gazeta do Povo", o Paraguai, nosso vizinho mais pobre, atraiu 124 indústrias desde que, em 1997, editou a chamada "lei da maquila" (o próprio nome indica uma cópia do sistema mexicano na fronteira com os Estados Unidos).
A maior parte dessas empresas (78) instalou-se a partir de 2014, não por acaso o ano em que a crise brasileira ganhou cores trágicas.
O que as atrai? Imposto de apenas 1% para quem exporta 100% da produção.
Para comparação com os 700 empregos que a Ford deixou de levar para o México: as 124 indústrias que se transferiram ao Paraguai geram 11,3 mil empregos —e, de novo, a maioria (6.700) a partir de 2014.
A primeira pergunta inevitável é simples: valeria a pena adotar o protecionismo que Donald Trump vem alardeando?
Confesso que já fui favorável a esse tipo de política, mas o mundo e o modo de produção mudaram tanto e tão velozmente que, agora, não parece mais fazer sentido.
Afinal, é como diz a "Economist" desta semana: "Um smartphone pode ser desenhado e ter sua engenharia na Califórnia e ser montado no China, usando componentes feitos ou desenhados em meia dúzia de países da Ásia e da Europa, usando metais da África".
Você vai proteger quem contra quem? No caso específico Trump x México, a revista lembra que cada dólar de exportação mexicana contém cerca de 40 centavos de produção norte-americana embutida.
Cabe ainda uma segunda pergunta: há alguma chance de que o governo brasileiro —o atual ou o próximo, seja qual for— adote políticas protecionistas, que estão fora do chamado "mainstream"?
A vantagem de Trump é não ter ideologia, e seu país tem poder descomunal. Logo, pode chutar o pau da barraca, com baixo risco. No Brasil, não está à vista um só político (ou mesmo "outsider") capaz de fugir da corrente majoritária.
Sempre há o risco de, ao fazê-lo, cair numa Venezuela, o mais fracassado país da região. Mas o tamanho da crise brasileira pede ousadia e pensar fora da caixa.

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