quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Opinião

O acidente pavoroso

Michel Temer ter definido o massacre de 56 presos no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus, como "um acidente pavoroso" é um erro porque uma tragédia anunciada não pode ser jamais considerada "acidente". No entanto, mais grave ainda foi ele ter achado o que achou apenas 83 horas depois do ocorrido, já meio mundo, incluindo o Papa Francisco, se havia pronunciado.
Nessas 83 penosas horas em que não reagiu à segunda maior tragédia do género no país, só superada pelo massacre do Carandiru, de 1992, Temer deixou as explicações nas mãos do seu ministro da justiça, o governante que, contrariando a opinião dos especialistas e a realidade dos factos, não vê na guerra entre organizações criminosas a motivação do massacre.
Alexandre de Moraes, que nos últimos meses prometeu erradicar toda a maconha do Brasil, numa tirada que deixou meio país a rir (sem sequer precisar de fumar um "baseado"), chegou ao governo por indicação de um dos clientes do seu escritório de advogados, o ex-presidente da Câmara de Deputados Eduardo Cunha, o tal envolvido em 11 de cada dez casos de corrupção no país e hoje detido. O passado, portanto, não recomenda Moraes.
Mas, por falar em passado, há longínquos 25 anos um ainda pouco grisalho Michel Temer tomava posse como secretário de segurança na prefeitura de São Paulo imediatamente após Carandiru. Na altura, decidiu que os polícias que executaram 111 detidos desarmados mereciam "um período de repouso e de meditação". Continuam impunes até hoje.
As 83 horas de silêncio de Temer não foram mero factoide político. Ainda o presidente pensava no que dizer - ou rezava para conseguir escapar sem precisar de dizer nada - e já pais, mulheres e filhos das vítimas corriam pelas morgues de Manaus no mais tétrico dos puzzles: distinguir a que corpo pertencia cada cabeça, cada braço, cada perna decepada na chacina. Ainda o presidente da República pensava no que dizer e já presos de outra cadeia de outro estado planeavam o massacre seguinte, com direito a 33 mortos e a corações e tripas arrancados.
O colunista do jornal Folha de S. Paulo Roberto Dias escreveu que quem não tem nada a dizer sobre o que se passa dentro das prisões provavelmente também não tem nada a dizer sobre o que se passa fora delas. A jornalista Carol Pires defendeu no The New York Times que Temer, mesmo presidente, se comporta como deputado.
De facto, Temer subiu na política falando pouco em público - raramente foi a votos, pisou palanques ou exerceu cargos executivos - e muito em privado - nos átrios do Congresso Nacional, onde o nível das discussões faria do casal Underwood de House of Cards um monge beneditino e uma freira clarissa.
Talvez por isso, também na penúltima tragédia brasileira, o acidente aéreo de Medellín que vitimou 71 membros da comitiva da Chapecoense, o presidente não tenha sabido o que fazer. Na véspera de aterrar em Chapecó, mandou os familiares das vítimas irem ao aeroporto receber condolências para evitar o velório, no estádio, e correr o risco de ser apupado. Teve de ser o pai de um jogador morto no acidente a dar uma lição de estadismo ao vetusto presidente: "Não vou a lado nenhum, ele se quiser que venha ao estádio, os importantes somos nós, não ele." Temer lá foi mas saiu por entre os intervalos da chuva intensa que se abateu sobre a chorosa cidade. Não foi apupado, como receava. Muito pior: foi ignorado.
Manaus e Chapecó provam que é mais fácil chegar a presidente convencendo nos bastidores 594 congressistas (60% deles com cadastro judicial) do que enfrentando milhares de cidadãos nas ruas ou conquistando milhões de votos nas urnas. Mas provam também que na era democrática a falta de votos persegue os políticos com mais vigor do que a oposição ou a imprensa. O trocadilho, fácil, correu no Brasil nesta semana: o governo Temer é um acidente pavoroso.

João Almeida Moreira (Do jornal Diário de Notícias de Portugal)

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Capa do jornal OEstado Ce