segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Bom dia

Opinião

janio de freitas
Colunista e membro do Conselho Editorial da Folha, é um dos mais importantes jornalistas brasileiros. Analisa as questões políticas e econômicas. Escreve aos domingos e quintas-feiras.

Massacres expressam a realidade mal conhecida de perigos que nos rondam

As matanças nos presídios de Manaus e Boa Vista não refletem apenas o criminoso sistema carcerário e as indiferenças perversas das classes média e alta, que servem de anteparo para a omissão dos governos em seus deveres penais. As explosões da violência encarcerada, crescentes em frequência e em Estados atingidos, expressam também a realidade mal conhecida de perigos que nos rondam a todos.
Degolados e degoladores, outros assassinados e outros assassinos, que hoje nos horrorizam, até há pouco estavam entre nós. Há estimativas de quantos estão nos presídios, quantos são os prováveis presos de tal ou qual facção –mas quantos entre nós? Os presos integrantes do PCC, do CV e de outras iniciais não são mais do que amostras, não só numérica, de uma força que se desconhece. E, para sorte geral, talvez ainda desconheça a si mesma.
O PCC e o CV expandem-se pelo país. Paulistas do PCC infiltram-se no Rio do CV para dominar os serviços de favelas, como está constatado na Rocinha. Há sinais de presença das duas facções já além-fronteira, na Bolívia, no Paraguai e no Peru. Dão assim uma ideia, a única, da dimensão que têm.
Com incontáveis milhares de jovens disponíveis, na marginalidade e no desemprego, para mais arregimentação. Seu arsenal, soube-se pela perícia de uma ação nas primeiras terras bolivianas, entrou no nível das metralhadoras pesadas, armas de guerra.
O MST lembra, na internet, uma ponderação de Darcy Ribeiro em 1982: "Se não construirmos escolas agora, daqui a 20 anos faltará dinheiro para construir os presídios necessários". PCC, CV e outras, por sua dimensão, não são mais aprisionáveis.
As facções cuidam de tráficos e do domínio das áreas chamadas "de baixa renda" (como se salário mínimo e desemprego fossem renda). E deixam por sua conta de cidadã ou cidadão algumas reflexões sobre o que será se, um dia, as facções quiserem mais do que tráfico e domínio de áreas humildes. Afinal, força é poder.
UMA FRIA
Prova, até o momento em que escrevo, nem mesmo o relatório oficial de acusações à Rússia mencionou. Ou, primeira hipótese, Obama e os democratas intensificam as afirmações de interferência russa contra a candidata Hillary Clinton para, próximo da posse, tentar sustá-la; ou, segunda hipótese, mais fraca, tentam um desarranjo com a Rússia capaz de comprometer as boas relações de Trump e Putin.
De repente, fica-se sob o risco mais inesperável: torcer por Trump. Se vitoriosos nessa segunda disputa, os democratas reabrem a Guerra Fria, como prenunciam com o retorno à velha linguagem.
Mas não se ganharia muito: Trump traz o risco de criar a sua Guerra Fria –com a China.
Qualquer que seja o desfecho, a América Latina estará, outra vez, na primeira fila dos prejudicados.
DE VOLTA
O financiamento do BNDES à obra de uma empreiteira brasileira em Honduras foi parte do escarcéu originado na Lava Jato, para acusar Lula de favorecimentos pela participação do banco.
Às vésperas de completar-se o oitavo mês de suspensão daquele financiamento e da exportação de serviços de engenharia, o BNDES volta a financiar a obra em Honduras e reabre a carteira para esses negócios.
A suspensão seguiu-se ao afastamento de Dilma da Presidência, em maio, antes do processo de impeachment.
Foi mais um farto conjunto de prejuízos causados pelos escândalos de "vazamentos" seletivos da Lava Jato e da falsa moralização propalada por Michel Temer. Ninguém pagará por esses e pelos muitos outros danos desnecessários.

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