domingo, 27 de novembro de 2016

Opinião

Fidel, Cuba e América

Se não contarmos com Donald Trump que ainda não tomou posse, Fidel Castro coexistiu ao longo da vida com 15 presidentes americanos, desde Calvin Coolidge, que estava na Casa Branca quando o histórico líder cubano nasceu em 1926, até Barack Obama, que este ano visitou a ilha agora presidida por Raúl Castro, o irmão mais novo.
Mas a contabilidade que impressiona mesmo é que dez desses 15 presidentes americanos tiveram que lidar de uma ou outra forma com Fidel, que no meio século em que esteve no poder encarnou tanto a revolução comunista como o nacionalismo cubano. Desde a frustrada invasão da Baía dos Porcos, em 1961, até às múltiplas tentativas de assassínio pela CIA, passando pelo embargo económico ainda em vigor, são muitas as razões de queixa de Fidel em relação ao vizinho gigante e tanto num artigo no jornal 'Granma' como num discurso em agosto deixou claro não estar entusiasmado com a normalização de relações lançada por Obama e Raúl.
Foi sintomático não ter recebido o presidente americano em Havana aquando da visita de março, apesar de Obama ter tido coragem de desafiar o Congresso e décadas de tradição diplomática americana ao dar passos para acabar com aquele que parece ser um dos conflitos herdados da Guerra Fria. Mas aqui o parece é mesmo um parece.
Quando Fidel criticou o presidente americano por não ter elogiado as conquistas da revolução, não era só um líder comunista a falar mas sobretudo um patriota cubano. Há dois séculos que Cuba tem uma relação difícil com os Estados Unidos, que com James Monroe presidente chegaram a cobiçar conquistá-la ao império espanhol e depois de 1898, quando William McKinley ajudou os independentistas inspirados em José Marti, nunca deixaram de considerá-la parte do famoso pátio das traseiras até chegar Fidel em 1959. A base de Guantánamo, arrendada até hoje pelos americanos, é a prova disso.
Cuba deixou de ter em 1991 a ajuda interesseira do grande irmão soviético e por isso viveu duas décadas de dificuldades económicas que obrigaram Raúl a fazer uma abertura que tenta um equilíbrio (impossível?) entre manter os ideais revolucionários e devolver a prosperidade à ilha. Uma relação normal com os Estados Unidos, ali mesmo do outro lado do Estreito da Florida, é fundamental para que a economia da ilha floresça, potenciada pelos altos níveis educacionais e por um sistema de saúde que merece elogios.
Mas se com Obama, de quem Fidel já fora do poder desconfiava apesar de admirar, o caminho estava a ser feito, resta saber se com Trump a nova política de boa vizinhança se manterá. Não é promissor que na Florida o voto dos exilados cubanos e seus descendentes tenha sido decisivo para a eleição, mas passe-se o que se passar Fidel, que chegou a atribuir uma medalha de barro a Trump, não estará cá para relembrar aos cubanos que não há dignidade com fome mas que a dignidade também alimenta os povos e a ilha não pode regressar à triste era de Fulgencio Batista, em que a apelidavam de bordel da América.

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