segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Opinião

Léa Maria e Snowden: nem herói nem traidor

O Golpe nasceu em Washington, segundo Stone

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Reprodução: Uma Coisa e Outra
O Conversa Afiada republica de "Uma Coisa e Outra", afiado artigo de Léa Maria:
Snowden, de Oliver Stone
Nem herói nem traidor: apenas um rapaz indignado


O premiado diretor americano Oliver Stone foi taxativo quando se referiu à espionagem do governo americano, através da NSA (National Security Agency), contra a presidente Dilma Rousseff e a Petrobrás, durante os últimos anos. Curto e direto, o diretor americano disse: “Dilma era um problema para eles. Estava sendo vigiada. Era um alvo de vigilância.” E arrematou: “Não encontraram nada contra ela e colocaram no governo, no seu lugar, gente que não foi eleita: existe outra definição para ‘golpe de estado’; e apoiado pelos Estados Unidos?”

Estas e outras observações sobre como se passam as coisas no mundo real, informações cada vez mais sonegadas aos cidadãos de todas as partes do mundo, foram detonadas por Stone não apenas nas entrevistas concedidas, semana passada, quando veio ao Brasil para lançar e divulgar Snowden. Elas estão também nesse excelente filme de sua autoria; direção e roteiro dividido com Kieran Fitzgerald. Para bloquear vazamentos ou roubo de informações, o roteiro foi escrito em apenas um computador sem acesso à internet durante o tempo de duração do trabalho.

O longa-metragem de Stone, meio documentário meio ficção, é uma cinebiografia construída com extrema habilidade e foi inspirado em dois livros. Snowden Files, do jornalista do The Guardian, Luke Harding e Time of Octopus, do advogado russo de Snowden, Anatol Kucherema.

”No Brasil, o título do filme ficou brega,” diz o diretor. “Snowden: traidor ou herói. Coisas da Disney, a distribuidora,” ele ironiza. Coisas da Disney: chama o filme para o grande público deste modo banal e enfatiza o quase thriller que ele é. E trata de adoçar o conteúdo da impressionante história do jovem Edward Snowden, um garoto da Carolina do Norte, de 29 anos de idade quando os fatos se passaram, três anos atrás.

Na tela ele é vivido pelo ator Joseph Gordon-Levitt cujo salário ganho no filme foi doado para grupos que pesquisam o uso da tecnologia digital como aliada da democracia. É uma preciosa interpretação do analista de excepcional inteligência que começou na CIA, e depois trabalhou na NSA.

O filme relembra como Snowden comprometeu o seu futuro pessoal ao denunciar os crimes que o governo americano vem cometendo ao vigiar cidadãos de todas as partes (dois bilhões de emails por dia e 1,5 bilhão de mensagens rastreadas em celulares), violando sua privacidade, grampeando cidades inteiras - Tóquio foi grampeada na sua totalidade pela NSA para se, algum dia, os japoneses deixarem de ser aliados; é o que mostra o filme -, e usando informações obtidas ilegalmente para destruir grandes empresas que contrariam seus interesses econômicos e geopolíticos. Caso da Petrobrás e da PDVSA, a Petróleos de Venezuela SA, sem falar na derrubada de governos inconvenientes; como no caso da Presidente Dilma Rousseff.

A narrativa se passa em três níveis: no primeiro, o célebre encontro (dramatizado) de Snowden com o grupo da conhecida documentarista Laura Poitras e dos dois jornalistas do The Guardian (Glenn Greenwald e Ewen MacAskill), num apartamento do hotel Mira, de Hong Kong; este permeia a todo o relato. No segundo, os lances da sua vida pessoal antes de entrar para a CIA, os primeiros anos de trabalho e vários episódios que o levam a tomar a decisão capital, naquele dia 8 de junho de 2013. No terceiro plano, a pontuação de flashes com imagens documentais. Nos três, Stone navega com desenvoltura, não descamba para a xaropada embora esteja sempre atento ao cinema popular. Sua segurança na linguagem cinematográfica é a marca principal da obra do diretor premiado duas vezes com o Oscar por Nascido em Quatro de Julho e por Platoon. Sua montagem é sempre admirável.

Quando entrevistado, no Rio de Janeiro e em São Paulo, Stone foi ao ponto: “Tenho certeza que Washington contribuiu para o golpe no Brasil fornecendo informações que a NSA coletou. Os EUA estão trabalhando em todos os lugares do mundo para atingir seus objetivos: Ucrânia, Ásia, Europa. E tudo tem a ver com o que o Snowden fala: controle total, nova ordem mundial. Mas lutar pelo seu ideal e ir à guerra por ele é uma coisa; mudar regimes é outra; é algo muito perigoso.’’

No filme, há informações, algumas novas, outras importantes a serem relembradas embora a história de Snowden seja conhecida do planeta. Uma delas: A NSA estava (ou ainda está?) rastreando cada celular no mundo para vigiar não só corporações, mas o cidadão comum: eu e você.

Outra: Laura Poitras foi detida 37 vezes em diversos aeroportos, todos eles grampeados, por conta dos documentários que já dirigiu. Dentre eles, Oath, sobre Guantánamo e o conhecido My country, my country, com a invasão do Iraque.

Mais uma: a hipocrisia de Barack Obama em seus discursos, na época do mega escândalo, se referindo às informações que ‘não podem ser retidas; têm que ser públicas.’ E o diálogo inquietante em que o instrutor de Snowden na CIA, Jeremy Corbyn, adverte: a maioria dos americanos, as pesquisas atestam, não quer liberdade; quer segurança.

Enfim: o filme faz grande sucesso onde é exibido. Dimitri Peskov, o assessor de imprensa do Kremlin, recomendou-o publicamente. Os mais importantes festivais europeus convidaram Stone e há dois meses o filme estreou no Festival de Toronto, de grande prestígio na América do Norte.

Alemães e franceses, onde, segundo o cineasta, Snowden é respeitado e admirado, entraram com o dinheiro para a produção que foi filmada em Munique. As majors do cinema americano não entraram com dinheiro. “Hollywood é covarde,” resumiu Stone, sempre sem papas na língua.

Já o whistleblower (lanceur d’alerte ou lançador de alerta) que mostrou como todos nós somos vigiados, apenas um homem indignado, segue a sua vida de mito contemporâneo, na Rússia.

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