segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Opinião

O CAVALO E O CASCALHO

Mauro Santayana


Encerrada a ressaca das eleições municipais deste ano, o ambiente político brasileiro continua recomendando cautela aos observadores, que tendem a agir com o cuidado de equinos que,   em dia de neblina, tateiam, com a ponta dos cascos, os limites da pirambeira da trilha de cascalho em que se encontram. 

A vitória do PSDB, cujo maior símbolo foi a eleição, em primeiro turno, na cidade de São Paulo, do Sr. João Dória Júnior, com menos votos que os nulos, brancos, e as abstenções, foi também o triunfo da antipolítica e da terra arrasada, como consequência da criminalização da atividade pública, que espantou os eleitores e tolheu a sua presença nas urnas eleitorais e o seu apoio a este ou àquele nome.

Há que se frisar o importante papel exercido por certa mídia, a mais parcial e venal, nesse processo, que não escondeu, em frente às câmeras, e nas capas das revistas semanais, sua  lúbrica, babosa, satisfação com o resultado, e com a coroação de um bem sucedido trabalho de anos de cínica manipulação da opinião pública.

Ou as ações daqueles que, plantados em algumas áreas da justiça, se julgam acima do voto e parecem pretender tutelar o país pressionando, com êxito cada vez maior, o STF, e interferindo direta e indiretamente nos rumos do Executivo e do Congresso Nacional, com óbvia influência na decisão do eleitorado menos esclarecido.

Provisório, se não descartável, para muitos daqueles que saíram vitoriosos das urnas, o PMDB - que deu origem aos tucanos - e que já foi, em parte, no passado, baluarte da redemocratização e do nacionalismo no Brasil - pode ser defenestrado do Palácio do Planalto a qualquer momento se não fizer direitinho o dever de casa determinado pelo discurso e a agenda entreguista e conservadora.

O desmonte e esquartejamento da Petrobras, a entrega do pré-sal e o fim do estado brasileiro, por meio da aprovação do teto de despesas do governo, excrescência que só existirá no Brasil, já que não há país desenvolvido que não tenha crescido por meio do endividamento,  abrem caminho para uma nova fase da vida nacional, cujo maior símbolo é a volta das missões do FMI a um país que é credor da instituição e que, com 370 bilhões de dólares em reservas internacionais, ocupa o posto de  quarto maior detentor de títulos do tesouro norte-americano.

A decepção da população brasileira com o PT, favorecida pelos erros do partido e por mega-factoides como o do Mensalão, que, apesar de manter o país em suspense por dois anos, envolveu menos de 70 milhões de reais, e o do suposto "Petrolão", que não conseguiria passar, sem os bloqueios e multas punitivas bilionárias por "danos morais" e sem a transmutação retroativa de doações normais de campanha em propina, de algumas dezenas de milhões de dólares (o mais é fruto de ilações  nascidas de delações forçadas, arrancadas de indivíduos detidos indefinidamente como o ex-ministro Antônio Palocci está agora, sob permanente "custódia"   da República de Curitiba) deu origem a um crescente número de votos nulos e de cidadãos que não compareceram às urnas, que retira boa parte da representatividade dos eleitos, e que não pode ser nada bom para a jovem - e periclitante -  democracia  brasileira.

Contra o retrocesso político e o econômico, a única saída no horizonte é a negociação e o bom senso.

A esquerda não pode colocar apenas no PMDB., ou no PSDB, a conta de um golpe anunciado, que todo mundo sabia que iria ocorrer, desde, que, pelo menos, inaugurando uma série de episódios mais que sintomáticos, sutis como Dinossauros, Dilma foi insultada em pleno estádio, de forma estúpida e chula, na  abertura da Copa do Mundo de 2014.

Sejamos francos e diretos, porque a História é dura e crua e não admite complacência ou meio termos.

Independente de suas eventuais conquistas, o PT - e não estamos nos referindo à sua militância - foi fraco, dividido, arrogante, medroso, incompetente, equivocado e omisso na  resposta e nas reações à articulação estabelecida para derrubá-lo.

Agora, seria recomendável que assumisse sua quota da responsabilidade - que não pertence apenas a seus adversários - pelo retrocesso estratégico e histórico que o país está vivendo, e que fizesse uma urgente e pragmática autocrítica, diante do que está acontecendo com a Nação, antes que o desastre - para mal da diversidade democrática do espectro político nacional - se repita, em maior proporção do que ocorreu, agora, com a legenda, nas próximas eleições. 
 
Não adianta querer agir intempestiva e  desarticuladamente, para colocar tramela na porta depois que a casa foi quase que definitivamente arrombada.

É hora de determinar e unificar estratégias - viáveis - e recolher os cavalos de batalha, ou melhor, de tirar o cavalinho da chuva e parar para pensar no futuro e no que se vai fazer com ele.

Da mesma forma que o eventual isolamento do PSDB em uma situação de força, quando lhe caberia liderar, neste momento, se não estivesse dividido e contaminado, no caso da maioria de suas lideranças,  por uma deslocada visão de mundo, a reação da política em torno da defesa das instituições; o crescente isolamento - também em boa parte dos casos  estéril - de alguns segmentos mais indignados e desesperançosos da esquerda, e principalmente da esquerda nacionalista, embora compreensível, não favorece em nada a liberdade e a democracia.

Ele apenas - principalmente se o PSDB caminhar ainda mais para a direita - pavimentará, como já se viu pela relação dos vereadores eleitos para a cidade do Rio de Janeiro nestas eleições, o caminho para a ascensão do fascismo em 2018.

E só pode beneficiar os inimigos do Brasil e de sua soberania, que se deleitam, lá fora, enquanto  fincam o pé, aqui dentro,  aproveitando o avanço do esquartejamento e da liquidação do país, com um célere e desastroso retorno a uma situação de colônia - que nos afastará da negociação - em que nos colocou a condição de uma das dez maiores economias do planeta - dos destinos do mundo neste vigésimo-primeiro século, ainda tão jovem quanto desafiante.

Mauro Santayana é jornalista e meu amigo

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