sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Opinião (Ta no Chumbo Grosso)


Quando Moro pisou no tomate. Por Josué Machado

tomate

QUANDO MORO PISOU NO TOMATE

Por Josué Machado

Ah, se os maiores enganos das figuras públicas se limitassem às distrações formais…

O juiz Sérgio Moro fez curioso comentário sobre projetos em tramitação no Congresso. Entre eles há no Senado um com que os ilibados senadores pretendem atualizar as leis sobre abuso de autoridade, preocupados que estão com a Justiça.  Ilibados, sim, limpinhos, sim, porque lá estão José Renan Vasconcelos Calheiros, Romero Jucá Filho, Fernando Affonso Collor de Mello, Edison Lobão entre outros, pelamor…

Mas isso não interessa aki, e sim a frase moriana:

Se o Congresso de fato fazê-lo…”

Comentário curioso quanto à forma. Na verdade, uma derrapada lingual.

O escorregão de Moro, claro, não o diminui, porque raríssimas pessoas deixam de pisar no tomate ao expressar-se de improviso.

Se não estivesse preocupado com a “Lava Jato” e a possibilidade de aprovação do tal projeto,  teria dito bem:

Se o Congresso de fato O FIZER…”

Assim, teria usado o verbo “fazer” no apropriado futuro do subjuntivo (ele fizer) em vez de  tê-lo feito no infinitivo pessoal (ele fazer), impróprio neste caso que expressa possibilidade. Confusão comum, aliás, até entre pessoas mais ou menos sábias ao comentar coisas de vida, amor e morte por aí.

…Imperdoáveis apenas os casos em que nossos admiráveis pais-da-pátria, além de ter tudo pago, inclusive o uísque, deslizam na bufunfa alheia, isto é, metem a mão na nossa bufunfa.

E não seria possível usar o pronome oblíquo “o” depois do infinitivo:  nada de inexistentes “fizer-lo” ou “fizé-lo”. Daí que o pronome “O”, correspondente a “aprovar”/”aprovação”, tem de ser antecipado ao verbo:

Se […] O fizer.”

Alguém poderia dizer que Moro deixou subentendida em sua fala a forma verbal “for”, de “ser”, ou a forma “vier”, de “vir”:

…se o Congresso de fato (FOR) FAZÊ-LO…”

Ou:

 “…se o Congresso de fato (VIER a) FAZÊ-LO…”

Hipótese improvável; ele apenas escorregou, e nem a mulher dele deve sofrer por isso. Nada de grave.

Imperdoáveis apenas os casos em que nossos admiráveis pais-da-pátria, além de ter tudo pago, inclusive o uísque, deslizam na bufunfa alheia, isto é, metem a mão na nossa bufunfa.

Naturalmente estas maltraçadas linhas  não representam nenhuma tola censura descabida, mas apenas a oportunidade de discutir um escorregão no uso do modo verbal adequado, tema em que ocorrem muitas distrações, mesmo entre pessoas que trabalham diariamente com a língua (no bom sentido) e por isso têm o dever de a conhecer, como diria Temer Lulia. Caso de jornalistas, advogados, procuradores, juízes – todo o pessoal da Justiça, enfim.

O fato é que todos erramos de vez em quando:

Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”, (Rom. 3:23), como exclamaria citando a santa Bíblia um desses pastores, entre os quais aquele deputado-pastor de chapinha antes de tosquiar mais uma ovelhinha atrás do púlpito.

Como não existe perfeição por aki, a não ser talvez entre nossos políticos,  relevemos escorregões formais irrelevantes e continuemos felizes.

Cada vez mais felizes.

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JOSUE 2Josué Rodrigues Silva Machado, jornalista, autor de “Manual da Falta de Estilo”, Best Seller, SP, 1995; e “Língua sem Vergonha”, Civilização Brasileira, RJ, 2011, livros de avaliação crítica e análise bem-humorada de textos torturados de jornais, revistas, TV, rádio e publicidade.

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