terça-feira, 9 de agosto de 2016

Fosse você leria isso aí

Isolamento, choro e estado depressivo: O drama de Rafaela antes do ouro

Getty Images
Rafaela Silva chora no pódio ao receber a medalha de ouro da categoria leve no judô nas Olimpíadas do Rio imagem: Getty Images
Gustavo Franceschini
Do UOL, no Rio de Janeiro
Um movimento errado e a medalha estava perdida. Em 2012, Rafaela Silva passou de “nossa promessa” a “uma vergonha” no intervalo de um clique. Só que o impacto das ofensas que ela recebeu na internet durou muito mais do que isso. A agora campeã olímpica foi ao fundo do poço, um estado depressivo que afetou tudo que a cercava durante meses. Quatro anos depois, a raiva e a frustração serviram de combustível para a maior vitória de todas: o ouro na Rio-2016.
Rafaela se viu em um país distante, abalada pela derrota mais dura da carreira, ofendida pelo seu povo e com comunicação limitada com a família. “Ela ficou muito mal. Não é coisa nossa não, ela ficou mal mesmo. Eu achei sério que ela fosse parar”, conta o pai Luiz Carlos.
A volta ao Brasil só aliviou parcialmente a dor. “Ela nunca falou assim diretamente, mas eu via ela no sofá vendo televisão e do nada ela começava a chorar. Aí eu perguntava e ela falava que às vezes esquecia que tinha passado a Olimpíada, que achava que ainda ia acontecer. Ela ficou meio que depressiva por um período. Não foi nem o erro que doeu, porque no esporte a gente está acostumado a ganhar e perder. O baque mais forte foi a história do racismo, do preconceito de todo mundo criticando”, conta Raquel, a irmã da campeã.
Rafaela relaxou no controle do peso, demorou a voltar aos treinamentos e perdeu o gosto pelo judô. Não queria sair de casa, com medo de que fosse xingada novamente nas ruas por quem a reconhecesse. O impacto do episódio foi além da preparação dela. Ciente dos efeitos que comentários maldosos podem causar nos atletas, a comissão técnica da seleção de judô passou a tentar evitar, sempre que possível, que eles leiam o que se escreve sobre eles nas redes sociais.
A menina criada na Cidade de Deus só voltaria a ser judoca meses depois, quando passou a ser acompanhada pela psicóloga Nell Salgado. Aprendeu, com as sessões, a transformar aquela frustração em ânimo para reagir. O primeiro passo foi tatuar a frase “Só Deus sabe o quanto eu sofri e o que fiz para chegar até aqui”, um mantra para o futuro. “Eles não sabem o que eu vivo no meu dia a dia, a cada lesão, a cada treino, a cada superação que a gente tem dentro do tatame, para ficar me criticando”, diz a própria Rafaela.
Quando ganhou a medalha, ela se lembrou. Nas primeiras entrevistas que deu como campeã olímpica, fez questão de dizer que “não era uma vergonha para a família”, e que “a macaca que devia estar na jaula” agora tem a medalha de ouro. “Ela guardou. Acho que serviu de motivação para ela e ela nunca esqueceu aquelas coisas”, conta Raquel.
Não que Rafaela precisasse provar nada a ninguém, claro, mas responder os críticos com o sucesso satisfaz. Um ano depois do episódio, no mesmo Rio de Janeiro que agora lhe dá a consagração máxima, ela tornou-se campeã mundial. Começou, ali, a convencer aqueles que a execraram. “Eu entrei no meu Face e tinha mensagem de um rapaz dizendo que ele foi um dos que me criticou na minha derrota em Londres e estava de pé para me aplaudir na minha conquista do Mundial no Rio”, conta Rafaela.
Hoje, ao que tudo indica, algo parecido deve acontecer novamente. “Eu vi ali na salinha escondida que eu ganhei quase 60 mil seguidores no Instagram só hoje. Tinha 10 mil e agora tenho 65 mil e alguma coisa. Sem foto. É uma foto que eu postei ontem quando fui ver uma competição. Eu ganhava no máximo 300 curtidas, agora tem 30 mil”, diz a campeã, aos risos com a popularidade.

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