sábado, 2 de julho de 2016

Outro dia fui a Cabo Verde...

Cabo-verdianos gastam mais em álcool do que em educação e o mesmo que em saúde

O álcool é a droga lícita mais consumida neste país. A escola é o principal espaço de iniciação de consumo, sendo as idades do primeiro contacto cada vez mais precoces
As famílias cabo-verdianas gastam em bebidas alcoólicas mais do dobro do que em educação e o mesmo que em saúde, revelam dados divulgados hoje, na apresentação de uma campanha nacional de prevenção do consumo abusivo de álcool.
A campanha, que conta com o alto patrocínio do Presidente da República e o apoio da Organização Mundial de Saúde (OMS), mobiliza mais de 60 entidades, entre departamentos estatais e do governo, autarquias, organizações não-governamentais, associações de voluntários, universidades, escolas, entidades desportivas, sindicatos e congregações religiosas.
Sob o lema "Menos álcool, mais vida", a iniciativa, que se desenvolverá em vários suportes, nomeadamente nas redes sociais e nos órgãos de comunicação social, tem como públicos-alvo particularmente as crianças e os adolescentes e os homens em idade ativa, mas dirige-se de uma forma geral às famílias, às comunidades e às entidades empregadoras.
O objetivo é contribuir para a diminuição do uso abusivo de bebidas alcoólicas e da dependência do álcool, que representa uma das principais causas de mortes prematuras no país, considerado um problema de saúde pública e social, mas que beneficia de "enorme tolerância social" e de um "forte pendor cultural".
Dados divulgados durante a apresentação da campanha dão conta de que em 2010, os cabo-verdianos consumiam em média 'per capita' 6,9 litros de álcool puro por ano, valor que dados divulgados já este ano pela OMS relativos a 2015 colocam em 7,2 litros.
Excluindo desta contabilidade os 61,4% de cabo-verdianos que se declaram abstémios, o consumo médio 'per capita' sobe para 17,9 litros por ano.
O álcool é a droga lícita mais consumida no país e as famílias reservam a mesma percentagem (2%) do seu orçamento para despesas de saúde e para bebidas alcoólicas.
A parte do orçamento familiar reservada para a compra de álcool é por vezes mais de o dobro da destinada às despesas com educação e, nos últimos anos, mais de um terço dos doentes internados no único hospital psiquiátrico do país regista problemas de álcool.
Cabo Verde regista uma frequência superior à média africana de perturbações ligadas ao álcool (5,1%) e entre os países lusófonos africanos detém a mais alta percentagem de mortes associadas ao álcool (3,6%).
Os dados assinalam ainda que o primeiro contacto com o álcool acontece em idades cada vez mais precoces (entre os 7 e os 17 anos), sendo a escola o principal espaço de iniciação nesta prática, segundo adiantou, durante a apresentação da campanha, a ministra da Educação, Família e Inclusão Social, Maritza Rosabal.
A ministra adiantou ainda que, além das crianças e adolescentes, o fenómeno abrange também os próprios professores, uma das classes mais afetadas pelo consumo abusivo de álcool, com "resultados tremendos" nos alunos.
Por isso, Maritza Rosabal, sustenta, que a aposta na prevenção tem que ser acompanhada de medidas de recuperação e reinserção social dos alcoólicos.
O ministro da Saúde, Arlindo do Rosário, assinalou os "elevadíssimos custos sociais e para os serviços de saúde" deste fenómeno e a "magnitude dos efeitos nocivos conexos" manifestos no número de mortes prematuras nas estradas, violência de género, absentismo no trabalho, doenças crónicas e incapacidades várias.
Para Arlindo do Rosário, a campanha "cria oportunidades únicas" para a congregação de esforços de várias entidades e organizações para "vencer um dos maiores problemas sociais e de saúde pública que o país enfrenta".
Durante a apresentação da campanha, o presidente da Sociedade Cabo-Verdiana de Prevenção do Alcoolismo, Luís Xavier, deu o seu testemunho como ex-dependente de álcool em recuperação há 12 anos e o atleta paralímpico Márcio Fernandes falou da luta que o seu pai trava diariamente com esta dependência.

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