sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Opinião

UMA ELEIÇÃO DO BARULHO
wilson ibiapina

Clidenor de Freitas Santos, presidente do IPASE no governo de João Goulart, candidatou-se a prefeito de Terezina, na eleição de 1954. Na campanha, distribuia arraia-papagaio, mas só com a linha. Quando a meninada perguntava pelo rabo ele dizia: - Peça ao Agenor. Era seu adversário que acabou ganhando.  Além dessas histórias que entraram no folclore político, as campanhas do passado eram marcadas por slogans e marchinhas que identificavam os candidatos e que até hoje soam na cabeça dos eleitores mais antigos: “O homem da vassoura vem aí...” ou “Bote fé no velhinho/ Ele sabe o que faz...”
Essa, agora,  realmente, foi uma eleição atípica, a começar  pelos nomes de alguns candidatos, dignos de entrar na história pela excentricidade, pela estravagancia.  São exemplos,  Botelho Pinto, candidato a deputado estadual pelo PSC do Rio; o petista baiano Cara de Hamburger e o cearense Zé Macedo Acorda Cedo, do PTN.  Os aventureiros apareceram em todos os estados. Agora, são famosos, artistas, atletas que chegam de paraquedas para disputar o voto. 

Em 1950, a imprensa de Fortaleza noticiava a chegada à capital cearense do diretor da divisão de administração do Sesi, no Rio. Dr. Antônio Horácio Pereira, candidato a deputado federal. Foi considerado pela imprensa como pioneiro. Foi o primeiro paraquedista a desembarcar por lá, com a mala cheia de dinheiro para trocar por votos. O jornalista Ciro Saraiva lembra que, em Quixeramobim, o aventureiro foi recebido pelos pais dele, Raimundo Cristino e dona Amanda, que ganhou logo uma nota de mil cruzeiros, daquelas que exibia a efígie de Pedro Álvares Cabral. Dona Amanda preparou-lhe um almoço de galinha guisada. A partir daí, em toda eleição, dona Amanda lamentava: -Antônio Horácio não apareceu mais. Só foi eleito uma vez. Outros Antônios continuam por aí, sem projeto, pedindo voto.

Na eleição de 2014 foi uma campanha sórdida, como a chamou Aécio Neves. O corpo a corpo que tomou conta das redes sociais entre candidatos e eleitores acabou  com muitas amizades e foi preciso a intervenção do TSE para acalmar os ânimos. O cientista político Marco Aurélio Nogueira disse, em entrevista à Época, que o baixo nível da campanha refletiu a desqualificação dos partidos.
 Estiveram, também, na mira dos críticos as pesquisas dos Institutos de opinião que  caíram em descrédito. O jornalista Augusto Nunes colocou lá no blog dele, na Veja: “Proponho aos amigos da coluna que esqueçam as sopas de algarismos espertos servidas pelas fábricas de porcentagens. Como se viu no primeiro turno, todas se tornam intragáveis depois da abertura das urnas.” E fez cálculos para mostrar que os Institutos erraram.

A urna eletrônica afastou a possibilidade de fraudes, como as que ocorriam no tempo das cédulas individuais. No interior as mocinhas, à serviço dos coronéis, pediam ao matuto pra ver a chapa que ele ia colocar na urna. Inocentes. entregavam a cédula que era beijada, deixando marcas de batom que anulavam o voto. Diz a lenda que em muitas cidades, o eleitor já recebia a chapa dentro de um envelope para ser colocado na urna. - Em quem eu vou votar, coronel? - Cala a boca, o voto é secreto.
A urna eletrônica fez desaparecer também a contagem manual dos votos e com ela as histórias de juizes corruptos: - “O juiz daqui é corrupto?, pergunta um candidato querendo mais votos para se eleger. - “É, mas  já foi comprado.” História de jacaré comer a urna que caiu no rio quando era transportada de barco no norte do país, nunca mais vai ser ouvida.  Num passado recente, a apuração só começava no dia seguinte à eleição. A polícia e fiscais dos partidos passavam a noite pastorando as urnas. O resultado, que levava semanas, hoje sai quase na mesma hora, no mesmo dia, tudo via satélite, computador. Infelizmente, só a segurança que a informática tem dado ao pleito, não é suficiente. O conselheiro digital dos congressistas americanos, Adam Sharp, constata que a tecnologia evoluiu, mas os políticos continuam os mesmos.

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