terça-feira, 30 de outubro de 2012

Tambem tenho direito a ter saudades

Gigante abandonado
Primeiro arranha-céu da América Latina, edifício A Noite, no centro do Rio de Janeiro, aguarda reforma
Daniel Marenco/Folhapress
Fachada do edifício A Noite, comproteção para que o reboco não caia nos pedestres
Fachada do edifício A Noite, comproteção para que o reboco não caia nos pedestres
ITALO NOGUEIRA
DO RIO
Do terraço, se vê a cratera pela qual a Prefeitura do Rio realiza obras de revitalização da zona portuária. No 22º andar, fotos de Emilinha Borba, Cauby Peixoto e Luiz Gonzaga ainda adornam os corredores da Rádio Nacional. Mas uma tela de proteção esconde da rua o primeiro arranha-céu da América Latina.
Em posição privilegiada na região em obras, o edifício A Noite aguarda reforma há anos. A tela que o esconde compõe aparalixo (andaime de proteção) para evitar que reboco da fachada caia nos pedestres. Os corredores têm fiações expostas e piso solto.
O prédio, inaugurado em 1929, marcou a história da engenharia e do rádio no país, e a virada no crescimento urbano da cidade.
Projetado pelos arquitetos francês Joseph Gire e brasileiro Emilio Bahiana em estilo art déco -sob encomenda do jornal "A Noite", que instalou ali sua sede e lhe emprestou o nome-, o prédio foi o primeiro arranha-céu da América Latina. Foi superado anos depois pelo edifício Martinelli, em São Paulo.
O edifício está voltado para a baía de Guanabara, no coração urbano da zona portuária revitalizada. Em sua volta surgirão dois museus. A praça Mauá, à sua frente, se tornará um calçadão de 44 mil metros quadrados.
"Todo o esforço da prefeitura no processo de revitalização na região faz com que essas ambiências particulares ganhem nova vida. O MAR [Museu de Arte do Rio], o Museu do Amanhã, e a modernização do edifício A Noite permitirão que a praça Mauá retorne ao seu período de relevância", disse Washington Fajardo, presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, da prefeitura.
Três licitações para reforma do edifício já foram suspensas em 2012. De acordo com o INPI (Instituto Nacional de Propriedade Intelectual), que administra o prédio, será lançado no primeiro semestre de 2013 novo edital para definir o "retrofit".
O atraso, diz o órgão, se deve a processo de tombamento no Iphan, que motivou alterações exigidas pela CGU (Controladoria Geral da União). O edifício já é preservado por decreto municipal.
A construção do prédio foi um marco na engenharia. Num cenário dominado por sobrados, a obra de 102 metros se tornou ponto turístico.
"Cada vez que colocavam uma laje, o pessoal festejava, batia palma", disse o artista plástico Roberto Cabot, bisneto de Gire que prepara livro sobre as obras do francês.
Erguido em concreto armado, formou engenheiros que depois atuariam na construção de prédios na cidade. O principal nome é Emílio Baumgart, que participaria anos depois da obra do Palácio Gustavo Capanema.
"Foi uma grande escola tecnológica para a cidade do Rio. [Descobrir] como levar água para os andares mais altos... Nosso sistema de abastecimento não tinha força suficiente para levar água numa caixa d'água naquela altura", afirmou o arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti.
O edifício influenciou o Código de Obras na cidade. Com a sua conclusão, a segurança e viabilidade de edifícios altos foram aceitas, verticalizando as moradias.
O terraço se tornou um dos principais mirantes da cidade. Combinado com o movimento no porto, local de chegada de estrangeiros, fez a praça Mauá viver seu auge entre as décadas de 1930 e 1950.
O prédio também guarda a história do rádio do país. Nos últimos andares se instalou a Rádio Nacional.
"Os programas de Manoel Barcelos, Paulo Gracindo e Cesar de Alencar provocavam filas em volta do edifício. Todos ficavam encantados com a velocidade do elevador", contou o locutor Gerdal dos Santos, funcionário da rádio há quase 60 anos.
A decadência da praça Mauá na década de 70, em razão das atividades portuárias, arrastou o edifício. O novo projeto de revitalização da região, com investimento de R$ 8 bilhões, atraiu interesse do setor hoteleiro no prédio.
Mas o INPI afirma que a intenção é manter a ocupação atual do imóvel, com dois andares destinados à Rádio Nacional. O prédio está sendo esvaziado sob expectativa da reforma. A rádio desocupou seu espaço.
"É importante que [a reforma] não perca o 'timing' das transformações que acontecem ali", disse Fajardo.

Penso eu - Aì, de 1967 a 1970, trabalhei na Rádio Nacional. Dividia sala com Pedro Anísio, Lourival Marques, Amaral Gurgel e o Maestro Chiquinho. Com 20 anos tinha direito às estripulias das quais hoje morro de saudades.

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